Bairro Social
Na infância não percebemos diferenças,
Na rua se passava o tempo,
Longas conversas sem fim,
Jogos e brincadeiras banais ou criativas,
Todos diferentes, todos iguais,
Nesta época apesar de muito tempestivo,
Era ingênuo, inocente até direi,
Apenas com a mania que sabia muito,
Mas na verdade nada sabia,
Tal como hoje nada sei,
Mas como sempre imensa vontade de aprender.
No meu tempo os rapazes jogavam á bola,
Minha falta de jeito excluía-me,
As raparigas conversas e brincadeiras de cachopas,
Eu desajeitado excluía-me,
Não sei bem qual o grupo em que melhor me insería,
Muitas vezes por minhas dúvidas,
Excluíam-me.
Tinha um amigo mais amigo,
Pelo menos eu dele,
Gostava como vestia, como desenhava,
Gostava do seu lado bom que também tinha,
Era galã e eu gostava,
Eu era mais tímido e inocente,
Esse amigo tinha um lado menos bom,
As voltas da vida,
Levaram-no para onde não deveria,
Um dia perdeu-se e partiu antes do que deveria ter sido.
Cresci por sorte sem crimes maiores,
Lembro muita gente, uns que partiram outros que ainda estão,
Lembro os locais onde corria e brincava,
Lembro o atletismo que pratiquei,
Lembro as viagens que o desporto me proporcionou,
Lembro a rua cheia de miúdos como eu,
As casas dos meus amigos,
Os sobreiros e oliveiras atrás do meu prédio,
Figos e amoras,
Brincadeiras irresponsáveis, perigosas até,
Por sorte sobrevivi, chegando até aqui.
No Ingote, bairro social onde vivi dos 5 aos 25,
Conheci tristezas e amarguras,
Muitos momentos felizes também,
Uma intensa batalha pela sobrevivencia,
Mesmo que numa fase não o percebesse ou sentisse,
A escola da vida levou-me pelos melhores caminhos,
Ou pelo menos pelos possíveis,
Não me perdi nas drogas, em crimes ou outras desgraças,
Em que se perderam alguns que conheci,
Fatídicamente, infelizmente.
Minha ligação ao bairro termina hoje,
Talvez não volte cá,
Minha mãe partiu e também a razão de aqui vir,
Ficará a memória que já tinha,
Ficam as pessoas que vou encontrando por aí,
Aquelas de quem vou tendo noticias,
Também aquelas que partiram ou não sabemos o paradeiro,
Mas que há muito ocupam um lugar no meu coração.
Na hora da despedida ao bairro,
Desejo felicidades e tranquilidade a quem fica,
É dificil manter relações cordiais entre tantas pessoas,
Feitios e opiniões diferentes, divergências acentuadas,
Conflitos nem sempre fáceis de sarar,
Vidas difíceis e sofridas onde a serenidade é dificil de atingir.
Hoje há mais facilidade apesar de tudo,
Há técnicos de reinserção social,
Observadores dos sinais mais ou menos perigosos,
Acompanhamento intenso de psicólogos ou mediadores,
Pessoas treinadas a conviver com realidades dum bairro social.
Há menos crianças na rua, há mais idosos,
Marcas do tempo, dum tempo,
Os que inevitavelmente ficaram,
Os que quiseram e desejaram ficar,
Nunca mais verei o sol daquela janela,
Ficará apenas e eternamente na janela da memória,
Até que tenha memória,
Até sempre bairro da minha infância e juventude.
Pedro Albuquerque

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