Olhar carregado de vida amargurada,
Vida sofrida, Trabalho e dificuldade de gerir vida familiar.
Do começo sei apenas que cantava fado pelas ruas,
Vestido amarelo,
Sim amarelo a sua cor preferida,
Uma única foto existia desse tempo,
A preto e branco, mas sei que em tons de amarelo.
O analfabetismo limitou tanta, tanta coisa,
Casamento falhado,
Contornos do mesmo não sei,
Sei apenas que deixou uma filha para trás,
Sorte a dela direi eu e a outra filha, minha irmã,
Não teve de viver tanta coisa que não é justo viver,
Coisas graves sem perdão, mas que já perdoei,
Mesmo que não consiga esquecer.
Pelo caminho depois de muitas complicações,
Depois de muitas coisas más nasci eu,
Não fui desejado,
Fui resultado de mais problemas, nem devia ter nascido,
A verdade é que nasci.
Dizia amar-me mas não sei se seria amor,
Para mim uma estranha obsessão,
Coisas de que nem gosto de falar.
Na confusão da mente,
Ou apenas maldade pura,
Os filhos não conseguiram escapar ao mal dizer,
Sobreviveram como podiam ou sabiam,
Tentando contornar dificuldades,
Para trilhar o melhor caminho.
Por mim falando sei que não fui o melhor filho,
Não fui exemplar, admito
Mas como podia ser? Então e os exemplos.
Os exemplos e as bases verdadeiramente,
Para além de virem da escola da vida,
Vieram de minha irmã, talvez minha verdadeira mãe.
Tenho mágoa e tristeza de não ter sido diferente,
Mais até por ela do que por mim,
Que não encontrou um caminho, uma felicidade,
Não lhe conheci gostos ou desejos,
Talvez só o fado que quando eu era pequeno a ouvia cantar,
Não lhe conheci ambição,
Apenas a vidinha de casa trabalho,
Talvez alguma ganância por dinheiro,
Que na realidade nunca teve.
Reclamava não saber ler ou escrever,
Reclamava da falta de visão, que se agravou sempre com o andar da vida.
Foi sempre contra todas e quaisquer relações dos filhos,
Mas nem sei explicar porquê.
Esqueceu completamente a existência da filha mais velha,
Poderia ser dum período traumático,
Mas era uma filha, não consigo entender,
Se tentei algumas vezes abordar,
Começou a gritar, bater-se e rasgar-se,
Reação típica ás contrariedades,
Algo que sempre me foi difícil entender ou aceitar.
Desisti de tentar,
Procurei viver minha vida,
Tive de me desenrascar.
A família criticou sempre a distância que mantive,
Era a sua opinião, nem quero contestar,
Também só sabiam o que lhes diziam,
Não sabem nem souberam tudo,
Até desculparam o indesculpável.
Neste quadro de vida,
Neste cenário, não lhe desejei mal,
Procurei sempre as soluções para as dificuldades que surgiram,
Não era presente, eu sei,
Estava quando tinha de estar, e estive sempre ou quase sempre.
Pelo caminho a minha vida,
As minhas más experiências de vida,
Foram para mim orientações e sinais,
Para tentar perceber algo de sua vida.
É com tristeza que a relembro,
Triste, solitária, sem caminho,
Como se apenas esperasse pela morte que tantas vezes pediu.
Vai em paz,
Encontra algo que te faça feliz,
Do outro lado, na outra vida,
Mãe.
Pedro Albuquerque
Pelo caminho depois de muitas complicações,
Depois de muitas coisas más nasci eu,
Não fui desejado,
Fui resultado de mais problemas, nem devia ter nascido,
A verdade é que nasci.
Dizia amar-me mas não sei se seria amor,
Para mim uma estranha obsessão,
Coisas de que nem gosto de falar.
Na confusão da mente,
Ou apenas maldade pura,
Os filhos não conseguiram escapar ao mal dizer,
Sobreviveram como podiam ou sabiam,
Tentando contornar dificuldades,
Para trilhar o melhor caminho.
Por mim falando sei que não fui o melhor filho,
Não fui exemplar, admito
Mas como podia ser? Então e os exemplos.
Os exemplos e as bases verdadeiramente,
Para além de virem da escola da vida,
Vieram de minha irmã, talvez minha verdadeira mãe.
Tenho mágoa e tristeza de não ter sido diferente,
Mais até por ela do que por mim,
Que não encontrou um caminho, uma felicidade,
Não lhe conheci gostos ou desejos,
Talvez só o fado que quando eu era pequeno a ouvia cantar,
Não lhe conheci ambição,
Apenas a vidinha de casa trabalho,
Talvez alguma ganância por dinheiro,
Que na realidade nunca teve.
Reclamava não saber ler ou escrever,
Reclamava da falta de visão, que se agravou sempre com o andar da vida.
Foi sempre contra todas e quaisquer relações dos filhos,
Mas nem sei explicar porquê.
Esqueceu completamente a existência da filha mais velha,
Poderia ser dum período traumático,
Mas era uma filha, não consigo entender,
Se tentei algumas vezes abordar,
Começou a gritar, bater-se e rasgar-se,
Reação típica ás contrariedades,
Algo que sempre me foi difícil entender ou aceitar.
Desisti de tentar,
Procurei viver minha vida,
Tive de me desenrascar.
A família criticou sempre a distância que mantive,
Era a sua opinião, nem quero contestar,
Também só sabiam o que lhes diziam,
Não sabem nem souberam tudo,
Até desculparam o indesculpável.
Neste quadro de vida,
Neste cenário, não lhe desejei mal,
Procurei sempre as soluções para as dificuldades que surgiram,
Não era presente, eu sei,
Estava quando tinha de estar, e estive sempre ou quase sempre.
Pelo caminho a minha vida,
As minhas más experiências de vida,
Foram para mim orientações e sinais,
Para tentar perceber algo de sua vida.
É com tristeza que a relembro,
Triste, solitária, sem caminho,
Como se apenas esperasse pela morte que tantas vezes pediu.
Vai em paz,
Encontra algo que te faça feliz,
Do outro lado, na outra vida,
Mãe.
Pedro Albuquerque
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